quarta-feira, 12 de maio de 2010

11/05/2010 – Aprendizes


Diário de bordo ‘Embaixo da Castanhola’ – Madson Ney

Quando penso que as coisas estão melhorando, tenho uma decepção. No último dia 07 fiquei chateado com os meninos e os dispensei ser falar nada. Talvez isso tenha servido melhor que uma reclamação. Hoje vieram apenas quatro meninos. No fundo, acho que três deles são os mais interessados e os mais prejudicados pela indisciplina dos outros.

A aula foi de percussão, com Osman. Tento não interferir muito nas atividades comandadas por ele, a não ser quando tenho certeza que estou ajudando. Dessa vez, eu mal precisei intervir, pelo número menor de pessoas e pela disciplina que eu já sabia que ia ser melhor, por conta da garotada presente.

Já na parte musical a turma ainda está um pouco acanhada. Um dos meninos é bem sensível e perceptivo nas batidas. Ele entra nos tempos certos e pega os toques muito rápido, mesmo dedicando o mesmo nível de atenção dos colegas. Percebo que os outros demonstram certa inquietude com os instrumentos. É como se não aceitassem a condição de aprendizes e quisessem sair sabendo tocar tudo de primeira. É essa impaciência, essa “necessidade” que eles sentem que os fazem perder tempo e os tempos da música. Osman se mostra seguro e consciente, por isso sei que eles vão acabar aprendendo a ser principiantes, pra só depois, poder aprender alguma coisa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

07/05/2010 – Justo o teatro?!


Diário de Bordo ‘Embaixo da Castanhola’ – Madson Ney


Tivemos o dia em que mais praticamos o teatro em si desde o começo das oficinas. E certifiquei o que já tinha percebido em outros exercícios: a galera tem habilidade pra muitas atividades, só que para encenação deixam muito a desejar.

Anteriormente, vinha fazendo exercícios para perceber a velocidade de resposta, de improvisação, de raciocínio lógico e de percepção em geral da turma. Alguns se destacam em uma coisa, outros em outras coisas, porém, o jogo cênico deles não é bom: Praticamente não existe. Eles ignoram as indicações dadas por mim e Antônio Marcos. Sentem muita vergonha, falam baixo, dão as costas pra todo mundo, falam de forma inaudível, são repetitivos e etc. Esperava mais deles, contudo, sei que podemos ajudá-los.

O que mais me chateou neste dia, foram as atitudes de alguns. Pedi que contassem uma estória em conjunto onde cada um criaria a continuação a partir do final de outra pessoas. Tivemos de repetir três vezes até que saísse algo bom. Depois, divide-os em dois grupos e pedi que encenassem a estória. Depois de vinte minutos de preparação um grupo já tinha se distribuído e ensaiado (se é que podemos ensaiar em vinte minutos...), enquanto o outro ainda estava distribuindo os “personagens”.

O primeiro grupo não foi muito bem na hora do exercício, mas fez o mínimo: apresentou. Já o segundo grupo, começou a se apresentar e, no meio do exercício, os integrantes desistiram e disseram que estava muito “choco”. Fiquei muito estressado com essa atitude e liberei a turma sem dizer “nem um piu”. Não devia ter feito isso, principalmente sem ter consultado Antônio Marcos primeiro. Mesmo assim, fiz, e foi o dia em que se houve mais silêncio ao término das nossas práticas. Saíram todos calados e de cabeça baixa. Tomara que pensando no que fizeram.

Quem fez a estória foram eles. Quem encenou foram eles. Quem fez o “choco” foram eles. Não será amanhã nem depois, mas eles ainda vão entender que “o ator é o príncipe do belo”, como também pode ser o rei do feio. Se por ventura o personagem está ruim, a maquiagem não combina muito, o figurino não casa, o cenário destoa, não sempre, mas, na maioria das vezes, a culpa é do ator. Há sempre algo que o ator possa fazer para contribuir com a maquiagem, o figurino, cenário e tudo mais. O maestro da cena é o ator, se ele não estiver bem, uma hora ou outra alguém vai atravessar.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

06/05/2010 – Um bom avanço


Diário de bordo ‘Embaixo da Castanhola’ – Madson Ney

Já na noite anterior fiquei sabendo que muitos não viriam. Nem todos os garotos vieram me dizer. Apenas um veio me falar que faltaria por causa de um encontro do coral da igreja. Deduzi que três ou quatro não compareceriam por fazerem parte do mesmo coral.

De forma alguma queremos proibir que eles façam outras atividades. Só queremos que eles se concentrem numa atividade só para que o aprendizado seja melhor. Se algum, por ventura, tome a decisão de fazer parte apenas do coral e isso seja realmente bom e proveitoso... Que vá! Não ficaremos nem um pouco chateados, estaremos torcendo pra que o melhor aconteça.

Agora vou lamber as minhas crias: eles estão se adiantando nas atividades que passo para fazerem em casa. Já nem preciso cobrar tanto. Também quero reforçar como os meninos são talentosos: no segundo dia de aula de percussão com Osman, eles mostraram um bom avanço, ainda tímido, mas, não deixam dúvidas de que a maioria leva jeito para as batidas. O que eles mais precisam é de orientação e de pessoas que os apóiem. O grupo cumprirá esse papel enquanto for possível.

Chuva de Balas na Baixinha


05/05/2010. Uma ótima noite para mais um Cinema na Praça. O público já estava cobrando. O povo da Baixinha quer cinema, quer teatro, quer arte e cultura. Levamos para praça o espetáculo Chuva de Balas no País de Mossoró: grande espetáculo a céu aberto que desde de 2002, acontece no ardro da Capela São Vicente, e mesmo sendo de acesso gratuito à população, muitos mossoroenses, o que inclui muitos moradores da Baixinha,  nunca assistiram ao espetáculo.

A história, é adaptada do livro do professor de Literatura, o mossoroense Tarcísio Gurgel, e conta a bravura do prefeito Rodolfo Fernandes e dos conterrâneos, na luta contra o bando de cangaceiros liderados pelo Capitão Virgulino Ferreira da Silva. Essa condição de resistência e coragem diante do grupo de Lampião é enaltecida durante a atuação. Vale a pena assistir a arte 'imitando a vida' e a história da cidade.

A trama é envolvente e o público, que vai crescendo durante a exibição, se encontra encantado. Todos os atores d'O Pessoal do Tarará fazem parte do elenco do 'Chuva'. E interessante era notar a alegria do público em reconhecer aqueles 'vizinhos' que se apresentam e fazem o cinema na praça, bem ali, na telona.



05/05/2010 – Sem vergonha


Diário de bordo ‘Embaixo da Castanhola’ – Madson Ney

Pergunto-me muito o motivo de termos vergonha. Num momento estamos a vontade, mas, é só alguém pedir para fazermos algo que costumamos fazer, ou ate que já estamos fazendo e tudo fica mais difícil, constrangedor. Quantas vezes cantamos e contamos estórias para outras pessoas sem nos envergonharmos. Talvez seja a certeza de que todos estão de olho não só nas suas virtudes, mas principalmente em possíveis falhas. A incerteza deve ser o motivo.

Gosto de me pôr questionamentos e tento observá-los em minha vida. Essa é uma das coisas que um ator precisa em sua trajetória artística: gestões e buscas. E é isso que o grupo vai buscar nesses meninos. Não queremos formar artistas descartáveis, comuns, e preguiçosos.

A vergonha tomou de conta da maioria da meninada nos exercícios. Outros se atrapalharam na rapidez de dar respostas lógicas. Fizemos jogos para testar a quantas anda a velocidade de suas ricas cabecinhas. A maioria não se deu muito bem nos exercícios. Considero que seja pela falta de costume, afinal, vivemos numa sociedade em que cada vez mais precisamos pensar menos. É isso mesmo! Hoje encontramos tudo no Google, no Globo Repórter, no Fantástico, e etc. Não precisamos selecionar o que vamos aprender, pois a TV e a internet nos enchem do que não precisamos “saBBBer”.

Não me preocupo com a vergonha e o costume de pensar menos. Sei que com a prática eles vão tirar de letra.

04/05/2010 – Primeiro contato com a percussão



Diário de bordo ‘Embaixo da Castanhola’ – Madson Ney

Os meninos tiveram o primeiro contato com a percussão junto ao professor Osman. Foi mais ou menos. Alguns já pegaram os nomes dos instrumentos, algumas batidas e se mostram bem desenrolados para os exercícios de ritmo.

Às vezes me pergunto se algumas pessoas já nascem com todas as habilidades para determinadas coisas ou se é o interesse que as faz ter maior facilidade. Observo que pessoas concentradas se dão bem num maior número de atividades. No entanto, pessoas, mesmo sem prestar muita atenção, conseguem desempenhar melhor algumas coisas. Será o interesse que as faz se destacarem ou a habilidade os faz interessar-se? Ainda não sei.

O fato é que temos meninos desconcentrados e talentosos, como também, concentrados e habilidosos. O que atrapalha é que os desconcentrados acabam tirando o foco dos que precisam se concentrar.

Uma melhora é perceptível: a consciência de cidadania. Ainda não chega perto de ser ideal. Mas, só de pensar de como eles agiam no primeiro dia... Eles já não jogam, pelo menos durante nossas atividades, lixo no chão, não xingam os colegas com a mesma freqüência e violência, e respeitam mais uns aos outros.

Vemos muitas possibilidades nessa garotada. Espero que o grupo possa ser decisivo na vida de muitos. Não só como artista, que é nisso que estamos investindo, mas que sejam pessoas exemplares em qualquer circunstância da vida.

30/04/2010 – Foi melhor

Diário de bordo 'Embaixo da Castanhola' – Madson Ney

Apesar do atraso e de algumas faltas das crianças do projeto, o segundo dia foi um pouco melhor do que o primeiro. Vejo que alguns meninos já começam a entender a filosofia do grupo e das oficinas. Já começam a cobrar atenção e silêncio dos outros. O que atrapalha são as piadinhas que alguns insistem em fazer. Alguns querem fazer piadinhas sobre qualquer coisa, até de forma discriminatória, o que é inadmissível.

Vivemos numa sociedade em que aprendemos cada vez mais cedo a discriminar. São piadas comuns e que muitas pessoas nem têm a consciência de que o que estão fazendo é muito grave. No meu ver há uma diferença entre preconceito e discriminação: tomo como preconceito quando se denigre algo que não temos conhecimento; e discriminação quando se acredita que uma pessoa com características ‘diferentes’ das demais não tenha os mesmos direitos que todos, uma forma de exclusão. Não podemos trazer discriminação pessoal pra dentro de um exercício teatral. Pessoas que se ofendem enquanto jogam não vão extrair um bom resultado.

Ainda estamos tendo problemas com alguns garotos. Mas, não vamos desistir de nenhum deles. Enquanto eles quiserem, faremos tudo para que eles se tornem aquilo que sonham. Vejo que uns querem ser atores, diretores, autores, cantores e etc. Outros, apenas querem ocupar seu tempo com teatro, como poderiam ocupar com capoeira, futebol e outras coisas, que, é claro, não são ruins. O que queremos é formar artistas e pessoas melhores do que nós.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Inspetor Geraldo na Baixinha – A estréia de Carmen


30/04/2010, 19:30h. A estrutura foi montada na quadra da praça do Portal do Saber. Os moradores da Baixinha chegaram cedo: todos queriam garantir um bom lugar para assistir O Inspetor Geraldo.


O público já esperava dar boas risadas com a Maria Antônia de Alex Peteka, ou com Prefeito de Madson Ney, com a Ana Carijó de Ludmila Albuquerque, com o chefe das comunicações de Antônio Marcos e com o Inspetor Geraldo de Maxson Ariton, porem, a noite aguardava uma surpresa: Carmen Batista, uma menina da Baixinha, estreando n’O Inspetor como a Dona do hotel.

O Inspetor Geraldo é garantia de bom público na Baixinha, os moradores gostam do espetáculo, alguns até sabem partes do texto de cor, porém a apresentação desta sexta-feira teve um diferencial que fez com a platéia duplicasse: o uso dos microfones. Apesar de, por questões técnicas, o som que o grupo dispõe ainda não ser aproveitado ao máximo, o fato de a apresentação ser ‘microfonada’ chamava a atenção de quem passava e colaborava para que os mesmos ficassem e prestassem atenção no que estava acontecendo. Com isso, pais e mães com seus filhos, casais de namorados, grupos de amigos se reuniram na praça assistir teatro.

*Vale registrar a presença dos alunos do módulo Teatro de Rua (curso ministrado no SESC por Dionízio do Apodi) que se divertiram com o espetáculo e conversaram com o grupo sobre o fazer teatral.

Ao fim da apresentação, vimos a boa participação que a comunidade vem apresentando durante as atividades realizadas a felicidade de ter o Ponto de Cultura Baixinha Berço das Artes.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Bela e a Fera


29/04/2010, 19h, de Walt Disney: A Bela e a Fera.

O filme conta a história de Bela, uma jovem bonita e inteligente que mora em uma pequena aldeia na França com o seu pai, Maurice, um inventor que é visto por todos como um louco. Ela é cortejada por Gaston, que quer casar com ela. Mas apesar de todas as jovens do lugarejo o acharem um homem bonito, Bela não o suporta, pois vê nele uma pessoa primitiva e convencida. Quando o pai de Bela vai para uma feira demonstrar sua nova invenção, ele acaba se perdendo na floresta e é atacado por lobos. Desesperado, Maurice procura abrigo em um castelo, mas acaba se tornando prisioneiro da Fera, o senhor do castelo, que na verdade é um príncipe que foi amaldiçoado por uma feiticeira quando negou abrigo a ela. Quando Bela sente que algo aconteceu ao seu pai vai à sua procura. Ela chega ao castelo e lá faz um acordo com a Fera: se seu pai fosse libertado ela ficaria no castelo para sempre. A Fera concorda e todos os "moradores" do castelo, que lá vivem e também foram transformados em objetos falantes, sentem que esta pode ser a chance do feitiço ser quebrado. Mas isto só acontecerá se a Fera amar alguém e esta pessoa retribuir o seu amor, sendo que isto tem de ser rápido, pois quando a última pétala de uma rosa encantada cair o feitiço não poderá mais ser desfeito.

O musical infantil encantou pessoas de todas as idades. As fotos que foram feitas da noite de ontem mostram ‘flagras’ do público que se deixou envolver por esta bonita história que deixa claro: Não há nada que o amor não seja capaz de transformar, e mais, o que realmente importa não é a beleza exterior, mas a capacidade de amar e de se deixar amar que cada ser humano tem em si. Que esta capacidade de amar possa ser cada vez mais apreendida por cada um.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

28/04/2010 – Um começo mais ou menos


Diário de Bordo 'Embaixo da Castanhola' – Madson Ney


Começamos hoje as oficinas do Ponto de Cultura , Baixinha - Berço das Artes”. As oficinas são ministradas por mim e Antônio Marcos, das 8h às 11h, na nossa sede.

Logo de cara todos chegaram atrasados e tímidos. Só que a timidez acabou de acordo com a chegada dos amigos. A turma é composta por dez crianças, no entanto, uma faltou. Eu esperava um número maior de ausentes. Com exceção de uma ou duas crianças, a galerinha é muito indisciplinada. Não escuta os comandos, não para de falar, rir e fazer piadinhas. Mas, não esperava muito diferente. E é exatamente aí que o grupo entra: não queremos formar apenas atores e atrizes: queremos cidadãos. Podemos ajudar muitos desses meninos a terem outras perspectiva em suas vidas. Sabemos que muitos deles raramente teriam a oportunidade de fazer teatro, aprender um instrumento, ou cantar, ou fazer capoeira. Queremos aumentar a chance desses garotos de se descobrirem na vida. Daremos suporte para que essa turma seja tida como exemplo na comunidade. Uma coisa podemos afirmar: quem quiser e deixar, faremos de tudo pra ajudar e transformar numa pessoa melhor. Não é melhor por ser mais do que alguém, e sim melhor pra sua comunidade e pra si mesmo.

Apesar das dificuldades, a turma me pareceu talentosa: uns já mostram aptidão para o canto, outros pra atuação, outros de raciocínio rápido. O melhor é que são crianças e sem muitos vícios e manias. Podem ser “moldadas” com mais facilidade. O que não podemos esquecer é que são crianças e que têm o seu tempo. Temos que lembrar que já fomos crianças e pensávamos da mesma forma. E muitos de nós precisamos de uma pessoa para nos mostrar algo diferente. Tudo que sabemos é resultado do que encontramos no mundo e nas pessoas que nele vivem. Temos que ser empurrados, mas as pernas são nossas e só nós temos controle sobre elas.